domingo, 1 de junho de 2008

Tom de Minas

Nas minhas andanças mineiras, muita coisa interessante aparece - pra minha alegria, claro. Ontem mesmo, conversando com um amigo, comentávamos sobre a quantidade de discos bons produzidos em Minas e, claro, a dificuldade em encontrá-los e adquiri-los.

Hoje eu queria falar sobre um disco mineiro especial: TOM DE MINAS.

Trata-se de uma pequena relíquia, de 12 canções, quase todas autorais, que passeiam pelos recantos mineiros com alegria e muito encantamento.

Mas Tom de Minas tem uma característica especial: o artista! Para minha surpresa, o autor da maior parte das canções, e seu intérprete, é um padre católico: Fábio de Melo, scj (esse "scj" minúsculo ao final do nome quer dizer que ele faz parte da Ordem do Sagrado Coração de Jesus, pelo que me foi dito. Mas como não entendo nada da estrutura da Igreja Católica, não garanto essa informação).

Pois é. De um padre esperamos, normalmente, músicas sacras. Está aí, há muitos anos, o Padre Zezinho, cantando para as famílias católicas. Mas esse disco é diferente. Claro que paira por sobre as canções (em especial em algumas), a presença do Deus católico e de suas virtudes. Mas o disco, em si, não tem essa característica religiosa que pode incomodar aqueles que não professam a crença; em outras palavras, não é um disco de louvor a um Deus ou a uma Igreja. É um disco de louvor a Minas Gerais.

E esse é o encanto do disco. Ao longo das faixas, a música e a poesia de Fábio de Melo nos conduzem às belezas de Minas. Diz ele, em belíssima canção dedicada a Milton Nascimento:

Tom de Minas
Terra onde a palavra é dom
Sons de mil tons
Terra onde das esquinas nascem sons
(...)
E o cantar de mil porteiras faz abrir o coração
do Brasil de que pouco a pouco vai colhendo esse clarão
Nossas minas reluzindo Venturini e Pedra Azul,
Guimarães colhendo Rosa no sertão.
(...)
Tom de Minas
Terra onde o artilheiro é rei
Rei de mil tons
Nascimentos tão Arantes neste chão

E segue adiante. E em outros belos versos, Fábio de Melo canta seu pai, sua mãe, a saudade das areias do seu lugar, sua cidade Formiga, as tardes e as montanhas de Minas. Canta as cirandas do tempo, Dona Ana anunciando a folia que começou.

O disco se completa na base instrumental perfeita, ancorada e abrigada na direção musical e nos arranjos de Wilson Lopes e na participação de um grupo de músicos da elite mineira. Além, é claro, da participação do grande Paulinho Pedra Azul.

Ao padre Fábio de Melo, faço minhas as palavras de Adélia Prado transcritas no disco:

"Pe. Fábio, a poesia,
a mais ínfima,
é serva da esperança.
Alegria!
"

Vale a pena escutar esse poema da alma de Minas, mesmo não sendo católico.

Serviço:

Tom de Minas - Fábio de Melo, scj - edição independente, 2004
Direção musical, arranjos instrumentais, violões e viola caipira: Wilson Lopes
Acordeon: Rafael Martini
Bateria: Lincoln Cheib
Contrabaixo: Beto Lopes
Teclados: Ricardo Fiuza
Percussão: Marco Lobo
Gaita: Rogério Delayon
Sax alto: Chico Amaral
Quarteto de cordas: violino spala - Arthur Terto; violino - Fernanda Mattos; viola - Pierre Bredel; violoncelo - Ana Paula Faria
Backing: Anthonio; Titi Walter; Bê Sant'ana, Mariana Brant e Fábio de Melo

Contatos: www.fabiodemelo.com.br

Um comentário:

  1. Chap, uma das qualidades marcantes que fazem de você um tremendo crítico e apreciador musical é esse seu olhar sem preconceito, essa sensibilidade digna e capaz de separar o joio do trigo, essa disposição e interesse contínuos em encontrar jóias raras que nem sempre nossos surdos e viciados ouvidos podem perceber...
    Obrigada.
    V.V.

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