
"É sempre um milagre. Todas aquelas pessoas, todas aquelas preocupações, todos aqueles ódios e todos aqueles desejos, todos aqueles desesperos, todo aquele ano de colégio com suas vulgaridades, seus acontecimentos menores e maiores, seus professores, seus alunos heterogêneos, toda essa vida em que nos arrastamos, feita de gritos e de lágrimas, risos, lutas, rupturas, esperanças desfeitas e chances inesperadas: tudo desaparece de repente quando os coristas começam a cantar. O curso da vida se afoga no canto, há uma impressão de fraternidade, de solidariedade profunda, de amor mesmo, e isso dilui a feiúra do cotidiano numa comunhão perfeita. Até os rostos dos cantores ficam transfigurados: não vejo mais Achille Grand-Fernet (que tem uma linda voz de tenor), nem Déborah Lemeur nem Ségolène Rachet nem Charles Saint-Sauveur. Vejo seres humanos que se entregam ao canto.
É sempre a mesma coisa, tenho vontade de chorar, fico com a garganta apertada e faço o possível para me controlar, mas às vezes chego ao limite: mal consigo me reter para não soluçar. Então, quando tem um cânone, olho para o chão, porque é muita emoção ao mesmo tempo: é muito bonito, muito solidário, muito e maravilhosamente comunicante. Não sou mais eu mesma, sou uma parte de um todo sublime a que os outros também pertencem, e nesse momento sempre me pergunto porque não é essa a regra do cotidiano em vez de ser um momento excepcional de coral.
Quando o coral pára, todos batem palmas, com o rosto iluminado, e os coristas radiantes. É tão bonito.
Finalmente, fico pensando se o verdadeiro movimento do mundo não seria o canto." [Muriel Barbery, A elegância do ouriço, Companhia das Letras, 2008, pg. 197/98]
Quando comecei esse blog, pretendia falar de discos. Mas ao ler esse trecho, parte do "Diário do movimento do mundo nº 4", de uma adolescente de 12 anos, resolvi transcrevê-lo, aqui. De uma certa forma, meu sentimento do mundo passa por esse movimento: a música. Talvez Paloma esteja certa, e o verdadeiro movimento do mundo seja a música.
Portanto, coloquem um disco e embarquem nesse movimento.

"Dez, na maneira e no tom
ResponderExcluirvocê é o cheiro bom
da madeira do meu violão
Você é a festa da Penha
a Feira de São Cristóvam
é a Pedra do Sal.
Você é a Intrépida Trupe
a lona de Guadalupe
você é o Leme, o Pontal.
Pé do meu samba
chão do meu terreiro
mão do meu carinho
pedra em meu Outeiro
Tudo para o coração
de um brasileiro.
Nunca me deixa na mão
você é a canção
que eu consigo escrever, afinal
Você é o Buraco Quente
a Casa da Mãe Joana
você é Vila Isabel.
Você é o Largo do Estácio
curva de Copacabana
tudo que o Rio me Deu.
Pé do meu samba
chão do meu terreiro
mão do meu carinho
pedra em meu Outeiro
Tudo para o coração
de um brasileiro".
Chap, querido, queria fazer versos pra você, como esses do Caetano pra Martinália. Tomo emprestado, então,e deixo um beijo regisrado, admirado, orgulhoso, 'gradecido' por mais essa sua presença gostosa entre nós.
PAI,
ResponderExcluirEU QUERO ESSE LIVRO DEPOIS.
E COMO FAZ UM BLOG?
TODO MUNDO VAI AO CIRCO E TEM BLOG, MENOS EU!
BEIJOS,
SAUDADE,
TE AMO.
Caramba, Chap, esse é meu terceiro comentário de hoje. Tá bem, estão um pouco atrasados, mas nunca é tarde para transmitir deslumbramento. Seu blog é delicioso. Quero ler esse livro. Quero escutar aqueles CDs (recomendados nos outros textos). Estarei na sua cola. Serei visitante assídua. Não abandone seus seguidores!!
ResponderExcluirBjs.
V.V.